"Com-preender": A comunicação participativa na construção de relações autênticas.
- Lucas Góes

- 7 de jan.
- 5 min de leitura
Atualizado: 9 de jan.
Em um momento de reflexão alguns anos atrás, me deparei com um questionamento. Percebi que muitas pessoas que se amavam, que queriam o bem umas das outras, estavam tendo problemas ao se relacionar, em demonstrar seus sentimentos, seu amor e o cuidado com o outro. De forma que esse outro, receba esse sentimento de maneira construtiva, genuína e com todo potencial que o amor tem de nos integrar e fortalecer. Algo estava se perdendo no caminho, na comunicação. Algo na forma de demonstrar mas também na forma de receber. Mas então:
"Qual seria a forma de comunicar o amor?"

Bem, ao meu entender, comunicação é uma ação conjunta, cooperativa, como um jogo de xadrez ou um jogo de capoeira, onde existe uma dinâmica de “pergunta e resposta". E o amor, por mais divino que seja, e é, não tem como fugir desse fundamento. A comunicação, em sua essência mais profunda, transcende a mera troca de palavras. Ela se configura como um processo dinâmico e cooperativo, onde um pensamento, um sentimento ou uma intenção que habita nosso mundo interno inicia uma jornada em direção ao outro. Para que essa viagem seja bem-sucedida e o ciclo se complete, não basta apenas emitir a mensagem; é fundamental que ela seja não só recebida, mas genuinamente compreendida e acolhida na subjetividade do receptor. É nessa "construção conjunta", que a verdadeira conexão se estabelece, transformando o que poderia ser um monólogo em um diálogo rico e integrador.
A capacidade de amar e querer o bem é inata, mas o ato de expressar e receber esse afeto de forma construtiva é um desafio constante, muitas vezes obscurecido por ruídos, suposições e filtros pessoais. Para que a natureza do amor seja plenamente experimentada, a comunicação é fundamental. Precisa ser um canal fluido, como uma ponte, assentada sobre dois pilares fundamentais: a expressão clara e intencional do que se quer transmitir e uma escuta acolhedora, receptiva. Quando esses pilares falham, a conexão se fragiliza, e a intenção mais pura pode se perder, ser incompreendida, transformando o que deveria ser um ato de união em uma fonte de frustração e distanciamento.
O Desafio da Expressão Consciente
Quantas vezes a expressão de nossos sentimentos, por mais genuínos que sejam, transforma-se em um monólogo sem que percebamos? Despejamos nossas emoções, nossas preocupações e nosso carinho, esperando que o outro os receba e interprete exatamente como os concebemos. No entanto, a comunicação do amor e do cuidado não é um ato unilateral de descarga, mas um convite ao diálogo. Para que o que se sente seja recebido de forma construtiva, é preciso ir além da simples exteriorização. É necessário ter a intenção de moldar a mensagem de forma que ela possa ser acolhida e compreendida pelo universo particular do outro. Isso significa considerar não apenas o que se diz, mas como e quando se diz.
Aceitar que a nossa verdade não é a única, e que o modo como o outro processa e interpreta o mundo é distinto – influenciado por suas experiências, valores e até mesmo seu estado emocional – é o primeiro passo para uma expressão que realmente conecta. Se a nossa demonstração de afeto não encontra eco na "linguagem de amor" do receptor, ela pode não apenas ser mal compreendida, mas também gerar frustração e um sentimento de invalidação em ambos. Por exemplo, um abraço pode ser um gesto de amor para um, enquanto para outro, palavras de afirmação ou atos de serviço podem ser mais significativos. É um ato de aceitação da subjetividade alheia que nos permite ajustar nossa comunicação, buscando o ponto de encontro onde a mensagem será plenamente absorvida e nutrida. Assim, a expressão deixa de ser um mero desabafo para se tornar um gesto de nutrição da relação.
A Escuta Acolhedora e a Arte de "Com-preender"
Se a expressão é a voz que se oferece, a escuta é o espaço que a recebe. E aqui reside uma distinção crucial: entre ouvir e escutar. Ouvir é um processo passivo, a percepção de sons. Escutar, no entanto, é um ato ativo de intenção, consciente, uma postura de abertura e acolhimento que exige nossa presença plena. Podemos ouvir as palavras sem, de fato, escutar a melodia subjacente, os sentimentos não ditos, as necessidades implícitas.
A "escuta acolhedora" é um convite para silenciar o ruído interno; nossos preconceitos, defesas, a pressa em julgar e abrir um espaço interno para compreender o outro. É um ato de aceitação da experiência alheia, mesmo quando ela nos desafia. Significa estar presente não apenas com os ouvidos, mas com o coração e a mente, com intensão; suspendendo o julgamento e oferecendo um espaço seguro para que a totalidade da mensagem possa emergir. Reconhecendo a individualidade do outro, como um sujeito único e complexo, assim como nós mesmos. Dessa forma, podemos ver a parte do outro que está fora do nosso entendimento, dando espaço para o novo, o desconhecido.
"Só compreendemos verdadeiramente quando aceitamos.. Mesmo antes de entender."
Essa reflexão se traduz na prática em um convite profundo para que deixemos de lado a pressa de categorizar, julgar ou responder. Ela nos desafia a oferecer um espaço de validade à experiência do outro, permitindo que sua voz ressoe em nós com a autenticidade que merece. Antes mesmo que nossas lentes cognitivas a decifrem por completo. É na entrega, nessa pausa consciente para aceitar o que se apresenta, mesmo antes que possa entender, que a verdadeira conexão se inicia. É nesse espaço que está o caminho para uma compreensão mútua, que transcende a superficialidade das palavras e do entendimento lógico, onde a comunicação acontece com respeito as individualidades e alcança a sua plenitude.
A beleza da palavra "com-preender" reside em sua etimologia: do latim cum (com) + prehendere (tomar, apreender), significando "tomar junto", "apreender em conjunto". Isso nos lembra que a compreensão verdadeira é um esforço colaborativo, uma construção compartilhada que vai além do "entendimento individual". Não se trata de decifrar o outro isoladamente, mas de ambos se engajarem ativamente na criação de um sentido mútuo. A com-preensão exige transcender nossas próprias perspectivas, buscando um terreno comum onde a verdade da relação possa ser construída, reconhecendo e validando as perspectivas de ambos. É nesse esforço mútuo, nesse aceitar a complexidade do outro, que rompemos com monólogos e damos lugar a um diálogo autêntico, onde a intimidade e a conexão se aprofundam.
A Transformação Através da Comunicação Genuína
A jornada da comunicação nos relacionamentos é um contínuo convite à autorreflexão e ao crescimento. Ela exige que nos desarmemos, que tenhamos a coragem de aceitar o outro em sua totalidade; com suas diferenças, suas dores e suas alegrias, mesmo antes de conseguirmos encaixá-lo em nossos próprios entendimentos. É nessa entrega, nessa intenção de "com-preender", que o amor e o cuidado se tornam forças genuínas de integração e fortalecimento, permitindo que as relações humanas prosperem em sua mais rica expressão.
Excelente texto! Fica aqui uma sugestão de outra abordagem/tópico: como a escuta atenta e profunda muda o Ritmo da comunicação/diálogo? Para além da ansiedade, tão disseminada hoje, aprender a ceder o tempo necessário para uma boa comunicacao Vs doar-se em demasiado (tendo dificuldade em impor seu limite na doacao ao proximo).
Escolher quem escutar? dizer "não" a certas conversas? Ter bons e poucos amigos/relacoes? Reduzir? Simplificar? Minimalismo? Less is more?
Ler esse texto dá uma pausa diferente, daquelas raras que toca em lugares muitas vezes difíceis.. Ele encosta numa sensação que muita gente vive, mas quase nunca consegue colocar em palavras: o desencontro que existe mesmo quando tem afeto, boa intenção e cuidado. A leitura me fez pensar na comunicação não como uma técnica, mas como algo vivo, que acontece no encontro e na troca e não só no que cada um acha que já sabe.
O que mais me pegou foi a ideia de que só amar, não resolve se não existir disponibilidade pra ser atravessado pelo outro. E isso vai além de saber falar bonito ou escutar com atenção. Tem a ver com aceitar que o sentido não…